Ray Conniff – La Mer


Sinal dos tempos

Alon Feuerwerker

Pelo menos num detalhe o governo parece admitir suas limitações. Nos bons tempos, esses 10 bilhões teriam ido para o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Agora vão para os juros

Não faz uma semana o governo batia bumbo sobre o superávit primário de julho, recorde. E sobre o acumulado nos primeiros sete meses do ano. Por ter poupado quatro em cada cinco reais que se dispusera a reservar em 2011 para o pagamento de juros.

Tudo estava bem.

Agora as autoridades econômicas anunciam uma meta adicional de 10 bilhões no esforço fiscal. Não somos governados pelo Tea Party, mas a ideia é similar: em vez de o governo gastar mais, vai conter a própria despesa e, assim, a demanda por recursos privados para alimentar a máquina pública.

O keynesianismo já era.

Com a medida, o governo revela ter concluído que cada real mandado de volta aos investidores gera mais crescimento e emprego do que se for investido ou gasto pelo próprio governo.

Houvesse no Brasil uma oposição de esquerda, ressurgiriam as críticas ao neoliberalismo.

Alguém recordaria os argumentos do Palácio do Planalto quando impôs dar ao salário mínimo e às aposentadorias no começo do ano só a inflação, e olha lá. Dizia que faltava dinheiro para mais. Que aumentos reais iriam quebrar o Brasil.

E foi ecoado pela turma sempre disposta a gritar que o país vai à breca se mais dinheiro for dado para os pobres.

Na época levantei duas hipóteses.

1) O governo enlouquecera ao contratar para o começo de 2012 um senhor aumento real do mínimo e das aposentadorias. Ou 2) o governo tinha como dar mais agora mas preferiu beneficiar os credores em vez de melhorar imediatamente a vida dos mais necessitados.

Deu a alternativa b, por causa do belo desempenho na arrecadação. Fenômeno que o governo já previa, e por isso aceitou o compromisso de um gordo aumento real em 2012.

Foi uma cruel conta de chegada, pois quem vive do mínimo ou de aposentadoria ficou condenado a atravessar sem proteção o ano inflaocinário de 2011. Matematicamente, a área embaixo da curva recebeu uma lipoaspiração e tanto.

Mas o governo não enfrentará dificuldades políticas por causa disso.

Espertamente antecipou-se e correu a oferecer o excesso de arrecadação aos banqueiros e a quem tem dinheiro em banco. Nem deu tempo de a turma pendurada no orçamento, no custeio ou nos investimentos, pensar em dar uma mordida no pedaço do filé que sobrou para fora do sanduíche.

E a opinião pública aplaudirá, pois austeridade nos olhos dos outros é um colírio.

Vamos ver o que faz agora o Banco Central. Este mesmo BC perdeu em 2008 a espetacular oportunidade de trazer os juros brasileiros a patamar civilizado, quando a demanda caiu a zero na eclosão da crise.

Foi o corolário perverso da ficção da marolinha. Já que a onda chegaria aqui como marola, o BC teve legitimidade para num ambiente econômico sem demanda manter nossos juros reais na liderança do ranking mundial.

Será bom se o movimento fiscal anunciado ontem resultar em atitude diferente agora no Comitê de Política Monetária. Ainda que o cenário da demanda seja bem distinto. Há um desaquecimento, mas nada que se compare ao mergulho de 2008 na piscina vazia.

Do episódio, por enquanto, fica a lição de que bons números trazidos pelo governo devem merecer saudável desconfiança. O superávit primário da semana passada tinha diversos problemas.

Havia um baita pagamento de imposto da Vale, pontual. O resultado brilhante fora conseguido à custa do aumento de imposto, e não de conter gasto. E o custeio permanecia intocado, enquanto o investimento tinha ido para o beleléu.

Veremos se haverá competência e -como se dizia- vontade política agora para mexer no vespeiro.

Pelo menos num detalhe o Palácio do Planalto parece admitir suas limitações. Nos bons tempos esses 10 bilhões teriam ido para o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Agora vão para os juros.

Não deixa de ser mesmo um sinal dos tempos.

Publicado por:  Blog do Alon


A prisão da identidade

Eliane Brum*

Prefiro me desinventar do que assinar minhas certezas em três vias

Antes, a pergunta que determinava nosso lugar no mundo era: “De que família você é?” ou “Qual é o seu sobrenome” ou “Você é filho de quem?”. Depois, a pergunta migrou para: “O que você faz?”. Tanto que, junto ao nome, em qualquer matéria jornalística, segue a profissão e, de preferência, a filiação profissional. Não é mais a filiação paterna, mas sim a filiação da instituição ou da empresa que confere legitimidade a um indivíduo e o autoriza a falar e a ser escutado. “O que você faz?” ou “Onde você trabalha?” é também a segunda ou a terceira pergunta que você escuta de quem acabou de conhecer em uma festa ou evento social. Só não é a primeira porque ainda faz parte da boa educação se apresentar pelo nome antes, ou fazer algum comentário sobre a qualidade da comida ou qualquer outra banalidade. A questão que se impõe, antes ou agora, é a mesma: a partir de que lugar você fala. A partir do lugar de onde alguém fala, prestamos atenção ou não naquilo que diz. O lugar de onde falamos é, portanto, o que nos confere identidade. E a identidade é uma exigência do nosso mundo.

Escrevo sobre isso porque tenho tentado escapar da prisão da identidade. Ou da prisão de uma identidade imutável como a impressão digital do meu polegar. E esbarro no funcionamento do mundo. Há um ano e meio vivo sem emprego. Por opção. A pergunta que mais escuto é: “Por que você deixou de ser repórter?”. Respondo que nunca passou pela minha cabeça deixar de ser repórter. Eu apenas deixei de ter emprego, o que é muito diferente. “Então você está frilando?”. Não exatamente. Não foi apenas uma troca de cadastro, de pessoa física para jurídica. Foi uma mudança mais profunda.

Explico que, a partir de uma investigação sobre a morte, compreendi que precisava me reapropriar do meu tempo e, desde então, venho fazendo uma mudança radical no meu jeito de viver. “Mas então você nunca mais vai ter emprego?”. Sei lá. Como saber? Não tenho nenhum interesse em assinar qualquer declaração de intenções em três vias. “Mas você agora trabalha mais do que antes!”, é o comentário seguinte. Sim, mas eu não mudei para trabalhar menos, pelo contrário. Eu adoro trabalhar e não me sinto oprimida pelo trabalho, porque, para mim, trabalhar é criar. Eu mudei para experimentar outras possibilidades de me expressar e de viver, o que para mim é quase a mesma coisa. “Mas você não separa trabalho da vida pessoal?” Não. Trabalho é bem pessoal para mim. “Mas você trabalha mais e ganha menos?”. Sim. “Hum.”

Eu faço várias coisas que quero fazer, tento explicar. “Então você se tornou documentarista?”, é a próxima pergunta, quando descobrem que estou no meu terceiro documentário. Às vezes, mas é mais como uma experiência de contar histórias do que como uma profissão. “Mas por que você decidiu parar de contar histórias reais para escrever ficção?”, é o questionamento mais recente, desde o lançamento do meu primeiro romance. Eu não deixei de contar histórias reais, apenas senti necessidade de escrever ficção. É mais uma voz na tentativa de dar conta do que me escapa (e continuará escapando) – e não minha única voz. “Mas então agora você é ficcionista?”. Sim e não. Sou várias coisas ao mesmo tempo. “Hum.” 

Estes são diálogos frequentes no meu cotidiano. A partir deles – e da necessidade persistente do mundo de me encaixotar em alguma identidade fixa e fácil de compreender – comecei a me indagar sobre isso. Afinal, o que as pessoas perguntam é: “Quem você é?”. E antes era fácil dizer: “Sou jornalista”. Só que isso dizia muito pouco sobre mim, já que ser jornalista é só o começo da resposta sobre quem sou eu. Assim como ser pedreiro, enfermeiro, morador de rua ou CEO é o começo superficial de uma resposta sobre quem é qualquer pessoa. Mas ter uma resposta simples para algo complexo deixava todo mundo satisfeito. Agora, minhas respostas sobre quem sou eu não satisfazem ninguém. Porque o melhor e mais honesto que posso oferecer ao meu interlocutor são mais pontos de interrogação. E, definitivamente, pontos de interrogação não são populares. O mundo exige respostas com pontos finais e, de preferência, exclamações peremptórias.

Ora, quem sou eu? Não sei quem sou eu. E, quando penso que sei, me escapo. Alguém já conseguiu responder a esta pergunta com alguma quantidade razoável de certeza? Ainda assim, por não ter uma resposta fácil para uma pergunta que define as relações do nosso mundo, tornei-me um incômodo. Mas, como a questão é legítima, tenho me aprofundado nela. E, nessa busca para compreender a questão da identidade, deparei-me com uma ótima história de Michel Foucault.

Em uma passagem pelo Brasil, em Belo Horizonte, Foucault foi questionado sobre o seu lugar: “Mas, finalmente, qual é a sua qualificação para falar? Qual é a sua especialidade? Em que lugar o senhor se encontra?”. Foucault ficou chocado com a “petição de identidade”. A exigência, constante em sua trajetória, motivou uma resposta de grande beleza em seu livro Arqueologia do Saber (Forense Universitari):

“Não estou, absolutamente, lá onde você está à minha espreita, mas aqui de onde o observo, sorrindo. Ou o quê? Você imagina que, ao escrever, eu sentiria tanta dificuldade e tanto prazer, você acredita que eu teria me obstinado em tal operação, inconsideradamente, se eu não preparasse – com a mão um tanto febril – o labirinto em que me aventurar, deslocar meu desígnio, abrir-lhe subterrâneos, soterrá-lo bem longe dele mesmo, encontrar-lhe saliências que resumam e deformem seu percurso no qual eu venha a perder-me e, finalmente, aparecer diante de quem nunca mais tivesse de reencontrar? Várias pessoas – e, sem dúvida, eu pessoalmente – escrevem por já não terem rosto. Não me perguntem quem eu sou, nem me digam para permanecer o mesmo: essa é uma moral do estado civil que serve de orientação para elaborar nosso documento de identidade. Que ela nos deixe livres no momento em que se trata de escrever”.

Lindo. Michel de Certeau que, como Foucault, foi alguém que conseguiu escapar dessa identidade de túmulo e, ao mesmo tempo, construir um sólido percurso intelectual, analisa essa questão em um dos textos de um livro muito instigante: História e Psicanálise – entre ciência e ficção (Autêntica). Certeau diz o seguinte sobre o episódio vivido por Foucault em Belo Horizonte:

“Ser catalogado, prisioneiro de um lugar e de uma competência, desfrutando da autoridade que proporciona a agregação dos fiéis a uma disciplina, circunscrito em uma hierarquia dos saberes e das posições, para finalmente usufruir de uma situação estável, era, para Foucault, a própria figura da morte. (…) A identidade imobiliza o gesto de pensar, prestando homenagem a uma ordem. Pensar, pelo contrário, é passar; é questionar essa ordem, surpreender-se pelo fato de sua presença aí, indagar-se sobre o que tornou possível essa situação, procurar – ao percorrer suas paisagens – os vestígios dos movimentos que a formaram, além de descobrir nessas histórias, supostamente jacentes, ‘o modo como e até onde seria possível pensar diferentemente’”.

A resposta de Foucault para a plateia de Belo Horizonte foi: “Quem sou eu? Um leitor”.

Quando me perguntam sobre o lugar de onde eu falo, tenho dito nos últimos tempos: “Quem sou eu? Sou uma escutadeira”. E agora posso até citar Foucault para a resposta ficar mais chique.

Na semana passada, participei de um debate na Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo (RS), com Edney Silvestre e Nick Monfort. Terminava minha apresentação dizendo:

“A vida é um traçado irregular de memórias no tempo. Quero que, como inventário do vivido, meu corpo tenha as marcas de todas as histórias que fizeram de mim o que sou. E, se meus netos e bisnetos forem me contar, espero que jamais cheguem a qualquer conclusão fechada sobre a minha identidade. Esta seria a maior prova de que vivi”.

Depois, a certa altura do debate, repeti que minha identidade era fluida. E que hoje estava mais interessada em me desinventar do que em me inventar, em me desidentificar do que em me identificar. À noite, quando me preparava para deixar a universidade, fui cercada por um grupo de garotas: “Obrigada pelo que você disse sobre a identidade”.

Percebi que, no mundo líquido em que a internet nos lançou, há algo sobre a compreensão do que é identidade que começa a mudar. É neste mundo novo que os mais jovens tentam dar passos de astronauta, mas a gravidade da antiga ordem os prende no chão. Ainda que por razões e tempos diferentes, eu e aquelas garotas, assim como muitos outros por aí, nos conectamos nas esquinas voláteis de um mundo que ainda é determinado por padrões de cimento.

Ao pegar o avião que me levaria de volta para São Paulo, olhei para a carteira de identidade descolada, parcialmente apagada e um tanto esfarrapada que apresentei no embarque. E finalmente entendi por que não consigo me convencer a substituí-la por uma nova. Enquanto me permitirem, é com ela que vou embarcar. Porque é nela que me reconheço. Quando me obrigarem a trocá-la, vou obedecer. Mas as autoridades jamais saberão que é em uma identidade que se desprende de si que reside minha verdade.

*Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br

Publicado por:  Época


Democracia e moralidade

Denis Rosenfield

A democracia caracteriza-se por ter regras que asseguram a pluralidade de opiniões. Toda tentativa de coibir a liberdade de imprensa e de expressão de modo geral acaba por tornar inviável essa pluralidade, que é sua condição mesma de existência.

O Brasil tem convivido, nestes últimos anos, com uma série de iniciativas que têm como objetivo cercear essa liberdade. O caso do Estadão é o mais notório, pois continua sob censura, decretada por decisão judicial. O País, no entanto, tem crescido precisamente por ter uma imprensa livre, capaz de denunciar todos os desmandos e descalabros no tratamento da coisa pública. O atual governo já mudou vários ministros e a cúpula de diversas pastas ministeriais graças à sensibilidade da opinião pública, que erigiu a moralidade na política em princípio da vida republicana. E sua condição é a liberdade de imprensa.

O caminho, contudo, não tem sido fácil. No governo anterior presenciamos diversas iniciativas, mediante audiências públicas e conferências nacionais, como as de Comunicação e Cultura, que tinham como propósito um controle do conteúdo jornalístico sob o manto de uma suposta “democratização dos meios de comunicação”. No caso, a democratização, numa deturpação evidente do seu sentido, teria o significado de controle desses mesmos meios de comunicação. Note-se o papel desempenhado por audiências públicas e conferências nacionais para, em nome da democracia, restringir uma condição própria de sua existência, que é a liberdade de imprensa e de expressão.

Tudo indica que o atual governo está agora trilhando um novo caminho, distinguindo a modernização da legislação do setor de comunicações, uma regulação que se faz necessária pelo avanço tecnológico das últimas décadas e o controle de conteúdo. Não esqueçamos que a legislação atual, ou melhor, as várias legislações datam dos anos 70 do século passado, quando a internet nem existia. Nossas regras do setor são anteriores à revolução digital.

Entretanto, muito menos atenção é dada a uma caracterização igualmente importante, a de que a democracia se define pela pluralidade de valores, pela coexistência, em seu seio, de várias noções do bem. Um bem maior, apenas, se situa acima de todos os demais: o de que a pluralidade de bens é um princípio que deve ser assegurado, sob pena de que as escolhas individuais de bens se tornem inviáveis. A liberdade de escolha é um valor que não é, nem pode ser, objeto de uma decisão “democrática”.

Um dos pressupostos de uma sociedade democrática é o de que cada cidadão possa escolher livremente o que considera melhor para si, sem que o Estado lhe imponha um padrão de comportamento. A pluralidade de bens situa-se na perspectiva da escolha individual, e não num suposto bem que seria imposto pelo Estado. A condição da cidadania é que o indivíduo não seja servo, ainda que a servidão possa ter uma aparência voluntária.

A contraposição que se estabelece aqui é entre o exercício da pluralidade de bens, pelos cidadãos que escolhem livremente, e uma forma de poder estatal que procura impor a cada um o que considera o bem coletivo. Neste último caso, o bem supostamente coletivo terminaria usurpando progressivamente o bem individual.

O terreno é muitas vezes pantanoso, as fronteiras aparecem como de difícil delimitação, pois, dependendo do que esteja em questão, se dá ou não a aquiescência dos indivíduos a um bem estatalmente imposto. Quando o governo, por exemplo, estabelece regras que ditam como deve ser o comportamento individual relativo à saúde, pode acontecer que as pessoas aceitem de bom grado tal diretriz, sem se dar conta de que ela invade o que deveria ser uma prerrogativa estritamente pessoal.

Ocorre aqui um processo semelhante com a liberdade de imprensa e dos meios de comunicação, a saber: a existência de audiências públicas, ou até eventualmente de conferências, tendo como objetivo regulamentar o comportamento individual. A iniciativa, no entanto, é mais insidiosa, pois feita em nome do bem dos indivíduos. Alguns caem na armadilha, muito frequentemente, porque compartilham algumas dessas iniciativas, como certas opções particulares relativas ao que cada um entende por bem, ou por sua saúde, mais especificamente. A imposição estatal do bem pode ser, então, percebida como se fosse fruto de uma escolha individual. Aqui reside o perigo.

Há, por assim dizer, uma coincidência entre uma ideia individual e uma certa iniciativa governamental. A imposição surge disfarçada de moralidade. O valor moral é o seu disfarce. Acontece, porém, que essa coincidência é ilusória, pois o “bem” compartilhado tem um fundamento distinto: um provém da esfera estatal e outro, da liberdade de escolha individual. Dito de outra maneira, uma sucessão de imposições governamentais, cada uma em acordo com certas ideias de comportamentos individuais, pode acabar tornando a pluralidade das noções de bem inviável. O pressuposto de ambas é completamente distinto, mesmo que isso apareça sob a forma aparentemente democrática e legal da audiência pública.

A opinião pública é mais naturalmente propensa a se insurgir contra restrições à liberdade de imprensa e de expressão do que contra restrições governamentais que impõem condutas quanto ao que cada um considera o seu próprio bem. O problema, porém, é da mesma natureza.

O risco consiste precisamente em que as fronteiras entre a democracia e a moralidade começam a se apagar, com o Estado se elevando à posição daquele que sabe o que é melhor para o cidadão. E também está em que o Estado se coloque como uma potência moral, destituindo os cidadãos de sua capacidade de discriminar racionalmente o que é melhor para si.

Publicado por:  Instituto Millenium


A sociedade precisa se mexer

Paulo Saab

O ponto que venho enfatizando nas últimas semanas neste espaço diz respeito à necessidade de uma reação da sociedade brasileira em relação ao grau de corrupção que alcançou a vida pública, notadamente depois do aparelhamento do Estado, onde a coisa pública passou a ser considerada propriedade de grupos de políticos, partidos e seus coligados da banda podre do empresariado, sem interesse na melhoria do País. 

Cabe neste enfoque a reportagem que a revista Veja publicou neste final de semana, mostrando como o ex-ministro José Dirceu, réu no processo do mensalão como chefe da quadrilha, desenvolve – de um apartamento de hotel em Brasília, pago de forma suspeita –, um governo paralelo, de onde conspira contra a presidente Dilma .

E ela sabe disso. 

É uma forma de exemplificar, desdobramentos do assunto a parte, como o poder público é visto no Brasil de hoje por aqueles que chegaram aos cargos de comando. O exemplo de Dirceu, aqui, é meramente ilustrativo, porque o fenômeno da incorporação do patrimônio público ao cabedal pessoal de cada um parece ter-se generalizado, não sendo mais privilégio deste ou daquele partido, deste ou daquele político, deste ou daquele governante. 

Na mesma revista, a ministra do STF, Ellen Gracie, diz em entrevista que é preciso lutar contra as distorções existentes na esfera pública, dando ênfase à questão penal, no qual deveriam ser enquadrados os políticos que desvirtuam sua função em benefício próprio. 

Este cenário todo pode ser traduzido como a chegada do Brasil a um ponto em que os valores dos bons costumes se perderam e a probidade administrativa, e mesmo o notável saber, foram relegados a quinto plano na formulação de quadros governantes e partidários nas Casas legislativas país a fora. 

Os brasileiros se ressentem, da ausência de lideranças de comportamento probo, sério; e a camada da população que discerne a que ponto chegou o descalabro precisa de algum modo tomar a si a iniciativa de reverter o quadro. 

Embora existam políticos honestos nas Casas Legislativas, não se pode deles esperar iniciativas que visem mudar a situação atual onde os corruptos (e corruptores) são protegidos pela própria legislação, tê foro privilegiado e raramente são punidos. 

Interessante notar que no caso da Receita Federal, a punição contra os faltosos existe e funciona. Já nos desvios orçamentários, emendas fraudulentas, licitações falsas, enfim, toda sorte de subtração ilegal de dinheiro do erário, quando se trata da ação de figuras públicas, quem sempre sai no prejuízo é a Nação. 

É preciso que cada brasileiro inconformado, não importa seu credo, partido ou em quem votou na eleição passada, se mobilize dentro de sua capacidade de atuação, para ajudar a encontrar mecanismos que eliminem os privilégios, punam os faltosos e contribuam para mudar o quadro desolador para os interesses maiores do País. 

É preciso, por exemplo, que cabeças pensantes do bem, que conheçam Direito Constitucional, ajudem a formular uma proposta de emenda que elimine o foro privilegiado, crie o rito sumário e a punição cabível a quem for pego desviando dinheiro público. 

Caso a iniciativa não parta da sociedade, de seus organismos, do cidadão comum, nada vai mudar. 

Não é tarefa para a oposição isolada. Não é tarefa só para os governistas honestos. É trabalho suprapartidário, para toda a Nação. 

No caso dos fichas limpas foi a sociedade quem impôs a lei aos políticos. Precisamos fazer isso também para tirar da cena os corruptos e colocá-los na prisão. Estou fazendo a minha parte. Alguns leitores já se manifestaram. Quem mais se habilita? 

*Paulo Saab é jornalista e escritor. psaab@institutocidadania.org.br

Publicado por: Diário do Comércio


A ‘fragilidade’ de Dilma

Rebecca Garcia*

“Vimos no que deu uma administração que tinha a vassoura como símbolo. Dilma fará a faxina, mas sem dar espaço a açodamentos que conduzam a retrocessos” 

A presidenta Dilma Rousseff estaria fragilizada, segundo dizem, por conta das mudanças ocorridas em seu Ministério nesses primeiros oito meses de administração. Não vejo desta forma. Democracias maduras, como a da Inglaterra e mesmo a dos Estados Unidos, sofrem mudanças bem mais profundas, no período de uma administração, que essas ocorridas e ainda ocorrendo no Brasil.

A tal “fragilidade” do governo é, para mim, sinal de fortalecimento da democracia, audiência à opinião pública e o desejo de contribuir para o avanço institucional.

A Inglaterra, sob o parlamentarismo, troca gabinete, primeiro-ministro e/ou parlamentares, no meio de seus mandatos, quando entende que as instituições estão sob risco. Basta um deputado votar contra o interesse majoritário de sua província para se ver sob o crivo de nova eleição. Winston Churchill, herói da II Guerra Mundial, último bastião a enfrentar o avanço avassalador de Adolf Hitler, teve que enfrentar as urnas em seu condado logo a seguir.

Nos Estados Unidos, onde o regime é presidencialista, o Presidente Barack Obama, diante da ameaça de veto ao aumento do teto de endividamento externo, teve que ceder em pontos que o Partido Democrata, ao qual pertence, considerava fundamentais. É o caso da manutenção das reduções de impostos para as grandes empresas, para os muito ricos e para a indústria do petróleo, feita por George W. Bush. Os democratas tinham como bandeira não apenas acabar com isso, mas aumentar os impostos para esses setores.

Uma medida como essa, em economia com o peso global norte-americano, representa muito mais que a troca dos ministros brasileiros.

É também uma demonstração de força, no Brasil atual, a decisão de não ceder às primeiras pressões ou incentivar uma onda de denuncismo. A presidenta Dilma tem mesmo feito verdadeira faxina na Esplanada dos Ministérios, embora, no momento preciso, tenha freado as coisas para reorganizar a casa. Senão, o governo acabaria como aquela anedota do cantor famoso, que demorava um século para gravar uma música porque, no meio do processo, alguém batia na porta dizendo que era filho dele, ele parava e mandava registrá-lo sem maiores questionamentos.

Esta semana, durante um encontro com líderes partidários, em jantar, a presidenta trocou afagos, conversou muito, trabalhou pela governabilidade, fez política, mas deixou claro que o governo não conviverá com a corrupção e que as mudanças necessárias serão feitas, embora nem todas na velocidade que os mais apressados gostariam.

Todos sabem, por outro lado, que a uma ação dura, como a empreendida pela presidenta, sempre provocará reações. Nessa batalha surda, se a sociedade ficar contra quem ousa mudar, buscando o melhor, simplesmente porque esse alguém recusa uma descida cega da ladeira e prefere manter os olhos bem abertos, então perderá o futuro do Brasil como democracia.

Graças a Deus, pelas primeiras pesquisas publicadas, a Nação está atenta e apoia os movimentos da presidenta, uma vez que a popularidade dela se mantém crescente.

Vimos no que deu uma administração que tinha a vassoura como símbolo. Dilma fará a faxina, mas sem dar espaço a açodamentos que conduzam a retrocessos.

* Graduada em Economia na Universidade de Boston (EUA), trabalhou na corretora financeira Merrill Lynch (Boston), fez parte dos quadros do Banco Pactual, dirigiu o jornal Estado do Amazonas e a programação da TV Rio Negro. Em 2006, foi eleita deputada federal. Em 2010, foi reeleita (pelo PP-AM). 

Publicado por:  Congresso em Foco


Não tem nada de mais

Carlos Alberto Sardenberg

O título acima inaugura uma série que é, na origem, patrocinada pelos políticos, especialmente pelos governantes que, apanhados em situações no mínimo embaraçosas, saem com esta: qual o problema? Não tem nada de mais.

Reparem no caso da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que levou uma boa indenização ao ser demitida da Itaipu Binacional, em março de 2006. Parece uma história simples, mas convém reparar um pouco mais.

Gleisi Hoffmann foi nomeada diretora financeira da Itaipu no início do governo Lula, em 2003, por indicação obviamente política. Não se está discutindo sua competência, mas está claro que a empresa, uma estatal, não a selecionou como grandes companhias privadas selecionam seus principais executivos (com agências especializadas em recursos humanos, entrevistas, discussão no conselho e na diretoria, etc.). Se ela não fosse política militante no partido do presidente da República, não teria sido recrutada para o cargo.

Pela mesma razão política, Gleisi Hoffmann decidiu sair candidata a senadora em 2006, pelo que precisaria deixar a diretoria de Itaipu. O que deveria fazer? Demitir-se, certo?

Errado.

Ela foi demitida, para que pudesse embolsar as indenizações devidas em casos de demissão sem justa causa. Foi um acerto com o presidente da estatal, Jorge Samek, que confirmou a história em entrevista à CBN. Contou o que disse a Gleisi: “Eu vou exonerar você. Você sai, levanta teu fundo de garantia e vai, vai para tua campanha”.

Só com a multa de 40% do FGTS, a ministra levou pouco mais de R$ 41 mil.

No mundo privado, é costume premiar com gordas indenizações os executivos que deixam suas companhias numa boa. Mas reparem: são executivos selecionados no mercado e remunerados com dinheiro privado. Já Gleisi Hoffmann estava exercendo uma função política antes de técnica e numa empresa do governo.

Perguntada a respeito, a ministra mandou resposta pela assessoria de imprensa. Disse que, sim, foi “exonerada” e indenizada nos termos da lei, tudo publicado no Diário Oficial.

Que quer dizer isso? Que saindo no Diário Oficial não tem nada de mais? Há uma óbvia questão política e ética: por que concordou com uma demissão arranjada? Pois está claro que ela não foi mandada embora por vontade da empresa. Ela quis sair para disputar uma eleição. Faz sentido receber uma indenização assim providenciada de uma empresa pública?

Nem uma palavra. Qual é o problema?

Negromonte. O ministro das Cidades, Mário Negromonte, também trouxe preciosa contribuição à série. Conforme reportagem levantada por este jornal, na campanha para deputado federal no ano passado, ele pagou despesas de aluguel de táxi aéreo com “verba indenizatória” da Câmara dos Deputados. Perguntado, caprichou na resposta. Disse que era tudo “legal, moral e constitucional”.

Verba indenizatória é uma mamata que a Câmara dos Deputados inventou para aumentar indiretamente os vencimentos dos parlamentares e driblar o teto constitucional. Bem vista a coisa, é uma maracutaia. Mas precisava ter um mínimo de, digamos, decência e lógica. Assim, a verba paga despesas do parlamentar em atividades para o exercício do mandato. Ou seja, uma ação pública.

Logo, não pode ser usada numa campanha eleitoral, que é uma empreitada pessoal. Ou seja, o uso da verba para pagar táxi aéreo só é legal e moral se tiver sido usada para atividade parlamentar. Negromonte diz que foi esse o caso.

Mas e a circunstância, digamos assim, dessa empresa de táxi aéreo ter sido a mesma utilizada pelo deputado durante a campanha?

Foi nesse momento que, perguntado, se saiu com sua versão do “qual é o problema?”. E ainda ficou bravo.

O ministro também enriqueceu a série com outro episódio. Acusado de patrocinar um tipo de mensalão, respondeu com outra acusação. Disse, em entrevista, que os membros do seu partido estavam numa guerra sangrenta e que muitos deles têm “ficha corrida”.

Quem tem ficha corrida é bandido condenado. Logo, se o ministro sabe que há esse tipo de gente no partido e no Congresso, não deveria apresentar uma denúncia formal?

Nada disso. Preocupado com a repercussão da entrevista, Negromonte disse que havia tropeçado nas palavras, não na ética. E, se não estivesse tudo o.k. com ele, ele não estaria ali, na vida pública e ministro.

Mas ele não havia dito que tem muita ficha corrida no seu próprio partido?

Campeão. Mas o campeão da série até aqui é o senador José Sarney. Flagrado num helicóptero da Polícia Militar (PM) do Maranhão, aparelho comprado para transporte de doentes, e na companhia de um empreiteiro que tem negócios com o governo maranhense, fazendo um voo de São Luís para sua ilha particular, em fim de semana, Sarney reagiu bravo: por ser chefe de poder, tem direito à segurança e ao transporte de representação em todo o território nacional, em qualquer circunstância, mesmo a lazer.

Na mesma semana passada, apareceu outra história envolvendo o senador, a questão dos supersalários, acima do teto constitucional. Parece que o chefe do poder está nesse caso. O site Congresso em Foco perguntou diretamente a ele. Sarney respondeu que não diria – “resguardado pelo direito constitucional à privacidade sobre os meus vencimentos, que tenho como qualquer cidadão brasileiro”.

Repararam? Para voar no helicóptero da PM é autoridade, uma pessoa não comum. Para esconder quanto ganha dos cofres públicos é cidadão qualquer.

Nota: na sexta-feira, a ministra Gleisi Hoffmann entregou carta ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em que se diz disposta a devolver o dinheiro da indenização, caso o Ministério Público entenda que o pagamento foi lesivo ao erário.

Publicado por:  Instituto Millenium


Adeus à faxineira

Ricardo Noblat 

Uma vez que Dilma se elegeu na base do votem em mim que Lula não pode ser candidato de novo, era preciso em seguida – e para seu próprio bem – conferir-lhe atributos e pretensões de modo a distingui-la do seu padrinho político. Afinal, governo de continuidade não deve ser necessariamente igual a governo que passou.

Mais imaginação, senhores!

Diferenças de método, de estilo e de temperamento foram então exaltados para beneficiar a primeira mulher eleita presidente da República do Brasil. Nada mais justo.

Lula falava demais. Dilma, de menos. Silêncio é ouro. Palavra é prata. Quem fala pouco costuma refletir melhor sobre o que diz.

Foto:/Antônio Cruz, Agência Brasil

Ponto para Dilma.

Lula viajava além do necessário. E não tinha paciência para estudar com atenção os principais gargalos do governo.

Sóbria, contida, Dilma preferia governar para dentro. O governo espetáculo não lhe fazia a cabeça. Ai de quem despachasse com ela sem estar devidamente preparado.

Novos pontos para Dilma.

Tudo corria mais frouxo no governo anterior. Foi assim até que Dilma substituiu José Dirceu na Casa Civil.

No governo ora em curso, a mão pesada de Dilma evitava a anarquia. Quem não se enquadrasse por bem acabaria enquadrado de qualquer jeito.

Ponto para a presidente. Nada como ter no comando uma boa executiva.

O discurso de posse de Dilma levara os mais entusiasmados a concluírem que muita coisa mudaria de fato. A política externa, por exemplo.

Celso Amorim deixara o Itamaraty. Doravante, o respeito aos direitos humanos seria cobrado com rigor. Ditaduras antes consideradas amigas passariam a sofrer um bocado.

Ave, Dilma!

Quanto ao destempero da presidente… Como negá-lo?

O general empalideceu ao ser despejado do elevador privativo do Palácio do Planalto. Os olhos aflitos do então ministro Antonio Palocci temeram a aproximação ameaçadora dos dedos indicadores de Dilma. Sem tempo de chegar ao banheiro, uma assessora dela fez pipi na roupa.

O destempero virou coragem.

Histórias de uma presidente que não teme ninguém e que todos temem acabaram turbinando a imagem da zeladora intransigente com o erro e a roubalheira.

Foi aí que as circunstâncias e o marketing pariram a “faxineira ética”.

Muitos pontos para Dilma. Até que…

Até que a faxineira se aposentou sob a pressão de aliados enfurecidos e incomodados por ela.

Constatou-se que a política externa permanece a mesma. E que a executiva centralizadora serve antes de tudo para tirar a iniciativa de sua equipe.

Que Dilma queira ser um Lula com autoridade redobrada, nada a opor.

Que tente ser Lula e Dilma ao mesmo tempo…

Menos!

Dilma lembra a presidente executiva de uma grande empresa recém-promovida a presidente.

Não tem mais de meter a mão na massa como antigamente. Não deve meter.

Cabe-lhe tomar as decisões mais importantes e desenhar o futuro da empresa.

Ninguém poderá substituí-la nessa tarefa – entende, dona Dilma?

Nas outras há candidatos à beça.

Publicado por: Blog do Noblat


O tiro no pé do guerrilheiro de araque

Augusto Nunes

Transformar um quarto de hotel em aparelho clandestino é sinal de pouca inteligência. Transformar um endereço no centro de Brasília em esconderijo para tramoias políticas e/ou comerciais envolvendo figurões do governo e do Congresso é prova de indigência mental. Fazer essas coisas simultaneamente só pode ser coisa do companheiro José Dirceu. Como comprova a reportagem de capa da edição de VEJA, ele nunca perde a chance de engrossar a colossal coleção de ideias de jerico inaugurada já nos tempos de líder estudantil.

Em 1968, Dirceu conseguiu namorar a única espiã da ditadura militar. Se quisesse prendê-lo, a polícia poderia dispensar-se arrombar a porta: Heloísa Helena, a “Maçã Dourada”, faria a gentileza de abri-la. Ainda convalescia do fiasco amoroso quando resolveu que o congresso clandestino da UNE, com mais de mil participantes, seria realizado em Ibiúna, com menos de 10.000 moradores. Até os cegos do lugarejo enxergaram a procissão de forasteiros.

No primeiro dia, mandou encomendar 1.200 pães por manhã ao padeiro que nunca passara dos 300 por dia. O comerciante procurou o delegado, o doutor ligou para a Polícia Militar e a turma toda acabou na cadeia. Ninguém reclamou: enquanto o congresso durou, todos haviam tentado dormir sob a chuva por falta de tetos suficientes. Incluído no grupo dos resgatados pelos sequestradores do embaixador americano, Dirceu avisou que lutaria de armas na mão contra a ditadura e foi descansar na França.

O lutador exilado empunhou taças de vinho num bistrô em Paris até trocar a Rive Gauche pelo cursinho de guerrilheiro em Cuba. Com o codinome Daniel, aprendeu a fazer barulho com fuzis de segunda mão e balas de festim, submeteu-se a uma cirurgia para deixar o nariz adunco, declarou-se pronto para derrubar a bala o regime militar e, na primeira metade dos anos 70, voltou ao Brasil. Percebeu que a coisa andava feia assim que cruzou a fronteira e, em vez de trocar chumbo no campo, foi trocar alianças na cidade.

Fantasiado de Carlos Henrique Gouveia de Mello, negociante de gato, baixou em Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná, casou-se com a dona da melhor butique do lugar e entrincheirou-se balcão do Magazine do Homem, de onde só saía para dar pancadas em bolas de sinuca no bar da esquina. Em 1979, quando a anistia foi decretada, Carlos Henrique, apelidado de “Pedro Caroço” pelos parceiros de botequim, abandonou a frente de combate municipal, o filho de cinco anos e a mulher, que só então descobriu que vivera ao lado do revolucionário comunista menos belicoso de todos os tempos.

Livre de perigos, afilou o nariz com outra cirurgia plástica, ajudou a fundar o PT e não demorou a virar dirigente. Ao tornar-se presidente, escolheu Delúbio Soares para cuidar da tesouraria. Depois da campanha vitoriosa de Lula, não se contentou com a chefia da Casa Civil: promoveu-se a superministro e monitorou o preenchimento dos milhares de cargos de confiança.

Nomeado capitão do time do Planalto, mandou e desmandou até a explosão do escândalo protagonizado por Valdomiro Diniz, o amigo vigarista com quem dividira um apartamento em Brasília. E então o país descobriu que o herói de Passa Quatro transformara um extorsionário trapalhão em Assessor para Assuntos Parlamentares. Atirado à planície pelo escândalo do mensalão, conseguiu ser cassado por uma Câmara dos Deputados que não pune sequer os integrantes da bancada do PCC.

Sem mandato, com os direitos políticos suspensos e desempregado, descobriu que estava pronto para prosperar com o tráfico de influência. Desde 2005 junta dinheiro como facilitador de negócios feitos por capitalistas selvagens. E hoje é chamado de Jay Dee por patrões que, na hora de tratar os detalhes do acerto, mandam a criançada sair da sala e vão à janela para saber se algum camburão estacionou por perto.

Quem se dedica a tal ofício tem de ser discreto. Dirceu acha possível seguir embolsando boladas de bom tamanho como “consultor” sem abandonar a discurseira contra a elite golpista e a mídia reacionária, sem renunciar à luta pelo controle do PT, sem arquivar a saudade dos tempos de primeiro-ministro, sem despir o uniforme de guerrilheiro de araque. A reportagem de VEJA contou a última dessa flor de esquizofrenia. Logo será a penúltima.

No momento, Dirceu jura que houve uma tentativa de invasão do aparelho clandestino montado em Brasília. Ele também vive jurando que o mensalão não existiu. “Tenho uma biografia a preservar”, recitou mais uma vez o chefe do que o procurador-geral da República qualificou de “organização criminosa sofisticada”. Aos 65 anos, enquanto o Brasil decente espera que o Supremo Tribunal Federal cumpra o seu dever, o que tem José Dirceu é um prontuário a esconder.

Publicado por:  Coluna do Augusto Nunes


O elo mais fraco

Alon Feuerwerker

E chegamos ao pulo do gato. Os espertos vão explicar ao povão, condoídos, que para implantar a pureza do financiamento público exclusivo precisarão, infelizmente, acabar com o direito de o distinto público escolher quem vai mandar ao Legislativo 

A votação da reforma política ensaia entrar nos finalmentes, com os maiores partidos acertados entre si para 1) reduzir os poderes do eleitor e 2) impedir a sociedade, pessoas físicas e empresas, de apoiar financeiramente vetores alternativos. 

Após anos de proselitismo sobre a suposta malignidade intrínseca do sistema político-eleitoral no Brasil, os donos da bola julgam arado o terreno para a semeadura decisiva: usar os propagandeados defeitos do modelo para aumentar ainda mais os poderes dos atuais beneficiários. 

Há algum tempo os oligarcas concluíram ser impopular a lista fechada para eleição de deputados e vereadores. Pois será natural que as pessoas reajam à cassação do direito de escolher os membros do Parlamento. 

Daí a tática ter derivado para a busca do elo mais fraco: o financiamento. Diante da sequência de notícias sobre malfeitos, os alquimistas explicam que a política brasileira é apenas vítima de um mau desenho. 

Que o dinheiro irregular é para as campanhas eleitorais. E se houver o financiamento público exclusivo isso será resolvido. 

Ou seja, os políticos que agem mal não o fazem para enriquecer, mas para pagar despesas nas eleições. 

O financiamento público exclusivo criaria um problema insolúvel no âmbito partidário, mantidas as regras atuais de candidatura. Como distribuir o dinheiro entre os diversos corredores num mesmo nível? 

Não é o caso das eleições para presidente, governador, senador ou prefeito. Onde há só um nome do partido ou coligação. 

Mas se cada postulante a deputado ou vereador precisar correr atrás do voto por conta própria, que critério adotar na divisão do bolo financeiro? 

O mesmo dinheiro para cada um? Impossível, pois toda legenda tem os campeões de voto e os apenas figurantes. Arbitrário, com cada caciquia decidindo quem vai receber mais e quem precisará se conformar com menos? Impossível. Não teria operacionalidade nem amparo legal. 

E vem o pulo do gato. Nessa hora, os doutores vão explicar ao povão, condoídos, que para implantar a pureza do financiamento público exclusivo precisarão, infelizmente, acabar com o direito de o distinto público escolher quem vai mandar ao Legislativo. 

Um mal que virá para o suposto bem. Para limar as impurezas, recorrer-se-á ao fascínio da ditadura virtuosa, coisa que o moralismo pátrio, nas diversas vertentes, propagandeia desde sempre. 

E aí a obra estará completa. Os donos de partido estarão entronizados, com o monopólio da política nacional. 

Já avançaram bastante. Na fidelidade partidária, nos prazos de filiação e domicílio, no poder absoluto para nomear e demitir dirigentes zonais, municipais e estaduais, na liberdade imperial para gastar como bem entendem o dinheiro público já disponível. 

Os caciques, os mesmos que frequentam o noticiário por razões pouco abonadoras, irão decidir quem vai se eleger e quem não. Eles próprios, naturalmente, reservarão a si cadeiras legislativas sem precisar nem sair de casa para buscar voto.

O partido majoritário, por ter vencido a última eleição, terá garantida uma vantagem financeira irreversível, pois se não é razoável que a verba seja igualmente distribuída pelas legendas, o único critério alternativo é o apoio obtido na última eleição. 

Isso vai acontecer mesmo em situações nas quais o governante estiver pessimamente avaliado, em que tiver perdido o apoio da maioria. Mesmo assim irá para a campanha em vantagem pecuniária insuperável, pois a oposição não terá como se financiar para equilibrar o jogo. 

Novos atores políticos passarão a enfrentar ainda mais barreiras para entrar no palco. A “renovação” da política irá depender mais ainda dos “dedaços”, em que os caciques decidem os “novos” personagens encarregados de “renovar” para que tudo permaneça como está. 

E restará aos insatisfeitos criar ongs, promover abaixo-assinados pela internet ou acampar em praças públicas. Enquanto os potentados institucionalizarão o direito divino de fazer do Estado brasileiro uma coisa nossa (deles).

Publicado por:  Blog do Alon